Volta Redonda nem parecia a mesma. Pelas ruas da cidade, ninguém falava na tarifa zero, ninguém falava na falta de dágua, nem nos tres secretários municipais que deram nos calos quando viram a coisa preta; só se falava no chanceler do Qatar. Na nossa história nunca que o nosso prefeito conversava com pessoa tão importante. Agora, um chanceler de carne e osso viria nos visitar. As pessoas buscavam informações no Google e viam que o Qatar, um dos países mais ricos da península arábica, era da hora. Mal cheguei em casa minha mulher ralhou comigo: “Meu bem, como é que você sai assim tão desarrumado, de chinelos?... Será que você não tá sabendo que a nossa cidade vai receber um chanceler?” Suponho que não precisa mais para dizer que a confusão era geral. Na prefeitura começou de véspera. O Prefeito Samuca Silva chegou em casa, quase sem respiração. Os olhos brilhavam e a mão suava. Parecia que ia ter um troço. A Sra. Silva abriu a porta e, antes de qualquer saudação, ele jogou-lhe a pergunta no colo : “Adivinha com quem vou conversar, amanhã!” Só podia ser alguém muito importante mesmo, Madame deduziu logo. Arriscou palpites dentro das possibilidades - Torresmo? Zézinho da Ética? Abacaxi? Não passou nem perto. Estava fria. O prefeito então disse escandindo as sílabas: o chan-ce-ler do Qa-tar. Veio o grito da parte dela “Mentira!”. Não, não era mentira, não. E puseram-se a arrumar as malas. A primeira dama esbaforida, reclamou de ele andar varrendo ruas no cemitério… Agora, ele ia ter que tomar um bom banho. E que não se esquecesse de limpar debaixo das unhas e lavar bem atrás das orelhas. Providenciaram uma buxa para ele se esfregar. E o prefeito tranquilizando, dizendo que tudo estava providenciado. Afinal, tinha quatro conselheiros, até destacou o Sérgio Boechat, o de maior salário. Disse que Sérgio tivera uma visão extraordinária. Recomendou que se comprasse uns galões dágua lá para a Prefeitura. Nunca se sabe o que pode acontecer. Foi até aplaudido. Sérgio animou-se e recomendou que o Prefeito fosse do aeroporto para o escritório do chanceler de bicicleta. O telefone tocou. A empregada gritou animada “Deve ser o chanceler”. Não era o chanceler; era o Sérgio Boechat dizendo pra não se esquecer de levar a bicicleta e o capacete. Enfim, o prefeito viajou e chegou lá. Da conversa saiu promessas de muito dinheiro pra nossa cidade. Ele viria a Volta Redonda para amarrar tudo direitinho. O prefeito voltou cheio de gás, contando e repetindo, repetindo, repetindo essa história. O Diário do Vale achou que era muita pipoca por dez centavos e descobriu que o chanceler era fake. Que coisa! Mas Samuca garante que não cai mais. Nunca mais, Diz que ficou esperto, que é outro, agora. Não sei. Sinceramente, não sei. Soube de fonte limpa que ao atender um telefonema no gabinete ele ouviu do outro lado: - "É o Severino, chanceler do Japão, filho do Virgulino da Serra da Barriga, em Tókio”. O prefeito bateu o telefone e falou pra todo mundo ouvir. Eu conheço essa voz; é o Neto. Tá pensando que me engana. Eu não sou mais bobo, não!
sábado, 1 de abril de 2017
sábado, 25 de março de 2017
quarta-feira, 22 de março de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS VEREADORES
Se eu presidisse um legislativo, o Artigo Um do seu Regimento Interno seria: “Quando um burro fala os outros murcham as orelhas”. Parágrafo Único - Revogam-se as disposições contrárias. Isto é essencial para o entendimento. Não sei porque vereadores, deputados e senadores gostam tanto de falar. Ninguém os ouve. Nem mesmo os seus pares. Verba volant. Se alguém precisar de tirar a prova não precisa ir longe. Aqui, em Volta Redonda, tem um baita exemplo - a Câmara Municipal. Vereadores se reúnem feito meninos no recreio escolar. Só lhes falta subir nas mesas brincando de pique alto. Jogar bolinhas de papel um no outro tem muita gente que diz que já viu. Eu, nunca vi, dado um vezo muito antigo que tenho, ponho toda a atenção na tribuna. O orador solta o verbo pra valer mas seus colegas não se tocam; continuam tagarelando ou no celular. Chegam até a tampar a orelha desocupada para ouvirem melhor o aparelho. Ninguém disfarça a baixa conta em que tem o legislativo. Veja como é a vida. Apesar de ter os ouvidos impenetráveis eles não querem que o povo fale nada. Isto ficou muito claro com o projeto do Paiva. O Paiva foi um vereador nosso - branco, alto, olhos azuis e arregalados, voz suave, barba por fazer, manso como uma cambaxirra e uma aparência anêmica. Ele era um vereador sem projeto, sem brilho, sem trabalho, porém um número expressivo de seguidores - a imagem cuspida e escarrada de um Antonio Conselheiro. Veio, então, um dia em que um anjo torto, desses que vivem pelas trevas (royalties para o Drummond) e soprou-lhe nos ouvidos essa ideia imortal de deixar o povo falar. O Paiva pegou e fez um projetinho simples. Deu-lhe, entretanto, um nome pomposo - Tribuna Popular. Coisa simples mesmo. De quinze em quinze dias, essa gente simples ia falar na Câmara Municipal, desde que observasse com excelso rigor os bons modos da casa. É claro! É fácil de imaginar a satisfação que daria. Era a catarse sem custo. Com tudo isto a projeto nunca foi aprovado. Quer dizer, nunca foi aprovado mas tem oferecido grandes dividendos. O Paiva ganhou quatro mandatos para Vereador, dois pra vice-Prefeito e ainda fez seu sucessor, Jari, o vereador mais votado. E tudo o que o Paiva fazia era requentar o projeto. De quando em quando, trazia-o de volta para nova votação. O Jari pegou a manha e vem fazendo igualzinho. O povo vai falar quinzenalmente. O povo vai se inscrever previamente, antecipando o que pretende falar. É vedado falar dos vereadores, dos seus assessores, dos seus parentes, amigos e vizinhos. Tudo conforme era. E, conforme foi, o projeto não será aprovado com a anuência inclusive do seu autor. Afinal, não se mata a galinha dos ovos de ouro. E ao som desse bolero, vida, vamos nós. E não estamos sós, veja, meu bem, a orquestra nos espera, por favor, mais uma vez, recomeçar.
sábado, 18 de março de 2017
quinta-feira, 16 de março de 2017
Assinar:
Postagens (Atom)






